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sexta-feira, 26 de março de 2010

DEPOIMENTO DE QUEM PERDEU A OPORTUNIDADE




Tinha vinte e oito anos, vivia nas ruas, tinha familia sim, mas eles não me agüentaram, um dia saí e ao voltar as portas não mais estavam abertas. Já fazia seis anos que vivia nas ruas.
Hoje eu os entendo, não era fácil manter-me na família, alguns dias bem, de repente eu dava um jeito, sempre há um jeito para uma mente viciada, e pronto saía e só voltava quando estava completamente drogado, se não conseguia a droga então eu bebia, é bem mais barato. O pior que voltava dando uma de muito macho, até na mãe eu andei dando uns empurrões, coitada mas ela sofria bem mais quando eu socava meu irmão, até não poder mais.
Várias internações, levavam-me na marra, a polícia vinha e me encaminhava para o lugar, não durava muito, era gratuito, muita gente precisando para perderem tempo com quem não queria ajuda, ou achava que não precisava, incrível como ficamos burros, é isto mesmo completamente burros.
O pai falecera um pouco antes de me colocarem pra fora, a mãe só permitiu que me colocassem pra fora porque foi chantageada. Meus irmãos, Geovarsio e Cleonice, disseram ou ele saí ou nós saímos. É lá eu não podia ficar, mas a mãe sempre deixava guardado um prato de comida, era só eu aparecer e ela me levava, eles não ligavam, só não queriam viver o inferno que eu causava.
Aos poucos fui me distanciando de lá, então a mãe saía às ruas para me procurar, sempre com uma bela marmita, mas quando me encontrava drogado, ouvia impropérios, reclamações e se punha a chorar, não desistia sempre retornava.
Trazia roupas, cobertas, tênis, bem a maioria eu trocava por drogas, principalmente se eram novas, deixava cigarros e dizia, não se droga filho, se tiver vontade fuma, é ruim mas melhor que as drogas que você usa, sempre palavras de amor, sempre as mãos estendidas prontas para me levar para alguma instituição, era só eu querer, eu não queria.
Bem para manter o vício, eu precisava de grana, pequenos furtos eram normais, arrumei uma namorada só pra explorá-la, moradora de rua, obrigava ela se relacionar com os caras em troca de qualquer droga, ela não era drogada, mas claro que eu a viciei, precisava que ela sentisse falta da maldita, para que aceitasse se prostituir, eu era um canalha.
Não nem sempre fui assim, até os dezesseis anos era o menino perfeito, apesar de não gostar muito de trabalhar por pouco dinheiro, eu o fazia era preciso, a noite eu estudava e passava sempre, todo ano, até o primeiro colegial era assim.
Um dia peguei umas amizades, eu sabia que eram da pesada, mas andavam tão bem vestidos, ofereciam um trampo de entrega, ganhava bem, muito bem, eu aceitei e falei para o pai que era ofice-boy, ele era simplório, eu nunca tinha dado problemas ele acreditou. Tudo ia bem até o dia que eu decidi experimentar as entregas, bem não precisa falar mais nada, o chefe me deu uma surra de criar bicho, me fez pagar o que consumira e depois disse que eu estava fora, quem trabalha com isso não pode usar otário, bem eu era muito mais otário do que imaginara, hoje eu sei.
Na rua, já com vinte e oito anos, parecia ter uns quarenta, sujo, magro, envelhecido pelo sol, pela noites não dormidas,
um dia nem eu sei porque um cara apareceu de moto e atirou em todo mundo, eu acho, porque vi dois caírem antes de mim, bem fiquei sabendo depois que acertaram a minha cabeça, dez dias de coma, mas o corpo era frágil, os órgãos faliram e eu desencarnei.
Um ano fiquei entre a minha casa e a rua, nove anos fiquei só em casa, foram o suficiente para eu ver milhares de vezes minha mãe chorar por mim, e mais outras tantas, meus irmãos que eu pensava que me odiavam, conversando sobre mim com certa dó e com sentimento de culpa, remorso mesmo. Mesmo estando já minha irmã casada ela vinha a casa de minha mãe e muitas vezes para desabafar, e um dia meu irmão a levou para um centro, e lá eles começaram a rezar por mim.
Eu não ia, mas sentia que eles estavam rezando por mim, porque subitamente eu me sentia bem, em paz, e os vultos negros que me espreitavam, como por encanto desapareciam,
além disso mamãe também se acalmava, eu já havia percebido que se eu me aproximasse muito dela, ela tinha fortes dores de cabeça, então para não lhe fazer mal eu me mantinha a distância, mas não saía de casa.
Bem quando fazia exatamente doze anos que eu estava ali, finalmente eu resolvi ouvir o irmão que sempre vinha me ver,
ele havia me achado graças as preces de meus irmãos, antes eu não o ouvia pois tinha medo dele ser o executor das leis de Deus, eu achava que ia ser castigado por ter me drogado e por ter maltratado minha família e induzido minha namorada às drogas, apesar que uns três anos antes de eu morrer, ela havia ido por vontade própria para uma casa de desintoxicação, e mais tarde soube que ela estava bem, trabalhando mesmo.
Desta vez resolvi enfrentar o castigo, não ia fugir de Deus a eternidade toda, mas quando ele começou a falar suas palavras foram doces, ele me ofereceu tratamento, e me explicou o quando minhas energias doentias faziam mal ao ambiente, não eu não queria fazer mais mal a minha mãe e nem ao meu irmão que sempre rezava por mim, então decidi ir.
Acompanhei o irmão, e durante o curto trajeto comecei a chorar, chorei copiosamente por dias, era o filho que retornava ao lar, era o filho recebendo o amor do Pai através dos seus irmãos, já tinha parado de chorar, mas desabei novamente quando um dia na enfermaria que me encontrava, apareceu no pé de minha cama, meu pai, e ainda por cima minha avó, ambos sorrindo me abraçando, não tinha coração que agüentasse, que vergonha eu sentia.
Sim meus irmãos, hoje já faz quinze anos que parti, três que permiti que me socorressem, olho para mim e vejo aquele menino de dezesseis anos, minha aparência rejuvenesceu, mamãe ainda em terra, costuma dizer aos meus irmãos, sempre que eu sonho com ele, o vejo como antes do vício, como quando seu pai ainda era vivo.
Hoje trabalho muito pouco perto de tudo que tenho recebido destes irmãos maravilhosos, faço assistência aos que desencarnam vítimas de drogas ou alcoolismo, mas já estou preparado para dentro em breve trabalhar no planeta, nas ruas mesmo, tentando abrir os olhos dos mais desavisados, suavizando as dores das famílias e agindo do lado dos profissionais da terra que trabalham nas entidades que ajudam os viciados.
Esta é a minha vergonhosa história, a história de alguém que jogou sua encarnação no lixo, indo ao edifício que cuida das encarnações, vi que se não tivesse desviado tanto do meu caminho, eu cumpriria minha missão e resgataria alguns débitos de encarnações passadas, trabalhando como auxiliar de enfermagem ou enfermeiro, junto a idosos, pois com eles é a minha maior dívida. Sem contar que na programação estava uma companheira de luta, que seria meu esteio, aquela mesma que eu levei as drogas, mas que graças a sua boa formação e fé, conseguiu sair. Hoje encarnada ela trabalha em um hospital, é auxiliar de enfermagem, bem casou, mas sente-se como se algo estivesse faltando, por melhor que é o seu marido, sente a minha falta, jamais me esqueceu, é outra alma que ora sempre por mim. Os filhos que eu teria, bem encarnaram dois através de meu irmão, e uma menina encarnou através de minha namorada, os outros dois filhos que teve já fazem parte da programação reencarnatória do seu marido.
Pois é, tudo foi arranjado, mas não era o melhor, o melhor era eu ter seguido a conduta certa, não ter jogado fora a oportunidade de importante reparo espiritual.
Conto tudo isto para vocês verem o quando cada um é importante na engrenagem Divina, ninguém deve jogar a sua chance fora, ninguém.
Gostaria de deixar bem claro que o tempo que passei perdido em casa, foi muito pouco perto dos irmãos que vejo sem luz, no umbral ou nas trevas há mais de século. A ajuda foi rápida por um único motivo eu não tinha ódio em meu coração, eu nem por um momento pensei em meu assassino com ódio, pelo contrário eu me esqueci dele, achei mesmo que o castigo era merecido, pois havia feito muito mal a muitos nesta Terra.
Dei este depoimento no único intuito de poder ajudar, quem sabe você não está jogando fora a sua encarnação, por algum motivo que no momento lhe parece muito importante, pare, reflita. Lembre-se que você não é o único ser vivente neste planeta, e nem o único ser vivente nesta galáxia, que muitos dependem de você, todo um programa foi minuciosamente traçado para que todos pudessem evoluir harmoniosamente.
Que a paz do Senhor esteja com todos, não darei meu nome correto, pois ainda tenho familiares encarnados e não quero causar mais dor do que já causei.

Ditado por Jailson
psicografado por Luconi
em 20-03-2010

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